segunda-feira, 23 de novembro de 2015

floripes


No sítio do Moinho do Sobrado, em Olhão, havia antigamente uma casa, onde aparecia à janela, noite fora, uma formosa mulher vestida de branco.
O único que se atrevia a andar por aquelas bandas à noite era um sujeito de meia idade - o compadre Zé - que se embriagava e adormecia na rua, sem receio. Há ruas que têm pessoas, era o caso.
Passou a ser costume a mulher de branco sentar-se ao lado de Zé, abraçando-o e fazendo-lhe festas, carícias que faltaram sempre a Zé e que lhe deixaram sempre saudade, apesar de nunca terem existido. Assim se vê, que podemos ter saudades daquilo que nunca tivémos.
o compadre, não conseguiu segurar o seu segredo. Aquela necessidade humana de ter de partilhar a felicidade com outros, esperando que haja um contágio mundial de felicidade... Estaríamos bem se assim fosse, mas não funciona assim. Convenceu, portanto, um amigo próximo que estava a dias do matrimónio. Mas um amigo... Normalmente cede ao seu amigo, nem que seja por compaixão. Num misto de descrença e curiosidade
, nessa mesma noite, Julião sentou-se junto moinho do sobrado, questionando-se como pôde ser tão tolo para se deixar embalar na conversa do seu amigo, que apesar de amigo era bêbado e portanto isto poderia ser uma alucinação ou um qualquer esquema para lhe sacar o dinheiro do bolso. Mas o seu esqueleto tremeu, em conjunto com a correcta dentição, conjugando o real cagaço com palidez acentuada, aquela sudorese mais fria que a água da ria formosa e a deglutição seca de saliva, tudo sintomas do momento que antecede o esticanço do pernil. Da porta da casa, saiu uma mulher de vestido branco comprido até aos pés, com um véu da mesma cor a cobrir-lhe os cabelos negros e dois olhos verdes a iluminarem a sua elegante face. Julião conseguiu encontrar aquela voz molhada, que vive depois do susto nas nossas cordas vocais, perguntando quem era aquela mulher linda que tinha perante si. Floripes apresentou-se, como princesa Moura, escondida ali por seu pai, o califa que teve se fugir à furia dos cristãos. Cruzou o mar para as arábias e desde então Floripes o espera. A mulher contou a Julião, que poucos dias depois da fuga apressada e atrapalhada, viu o barco do seu noivo. Vinha em seu resgate. Mas o mar foi mais forte e esmagou a embarcação. O seu pai notando a sua fraqueza e incapacidade encantou-a na esperança de poder voltar a ver a filha. Julião como bom homem, perguntou o que poderia fazer para a ajudar. Se fosse um homem mau, também acredito que o fizesse, há sempre uma raíz de bondade nos homens, pena que por vezes são raízes demasiado profundas. Floripes respondeu de pronto,como se fosse uma cena de teatro mal ensaiada e ela já soubesse o texto, de tantas as vezes que já repetiu a sua solução. Preciso que me abrace com os pés na ria, me fira no braço esquerdo que liga ao coração e me acompanhe até África levando sobre o mar duas velas sempre acesas. No final da viagem casaremos. Julião deu um salto para trás. Impossível vou casar-me dentro de dias, sou muito feliz e não faria tal desfeita à minha noiva. A moura, deixou cair os ombros com o ar que lhe esvaziou os pulmões, regressando ao interior da casa, sem brilho nos olhos.
reza a lenda que a jovem continua encantada, passeando-se por Olhão, pagando as suas compras com moedas de ouro, desaparecendo sem receber o troco. Á noite... Aparece aos homens, que a poderão salvar, uns têm-lhe medo, outros sem nada a perder sonham em encontrá-la.






quando em Olhão se esquecer de receber o troco é provável que ouça: "és como a Floripes, não queres a torna!".